A última Assembleia de Freguesia de Arcozelo ficará certamente para a história local - não apenas pelos temas discutidos, mas pela criatividade institucional demonstrada ao longo da sessão. Se alguém tinha dúvidas de que a política local ainda consegue surpreender, Arcozelo tratou de as dissipar. E com distinção.
Primeiro número: receitas que desaparecem… quando tudo cresce.
Na apreciação das contas de 2025, entrou em cena um fenómeno curioso: as receitas diminuíram num momento em que a principal atividade económica da freguesia - a indústria extratora de pedra - continua a crescer. Em qualquer freguesia com atividade extrativa em expansão, seria natural esperar mais receitas. Em Arcozelo, aparentemente, aconteceu o contrário. É um daqueles mistérios financeiros que merecem mais explicações do que silêncios. Uma redução significativa de receitas que, segundo foi referido, poderia ter permitido: adquirir mais uma carrinha para transporte de crianças, ou contratar um ou dois trabalhadores para servir a população. Perante estes números, o PSD optou pela abstenção. Não por comodismo - mas por prudência. Porque quando os números não fazem sentido, o silêncio não é solução.
Segundo número: o grande truque - retificar o que ainda não existe.
Mas o momento alto da noite estava reservado para o terceiro ponto. O Presidente da Junta apresentou uma proposta para aprovar um orçamento retificativo para 2026. Até aqui, nada de estranho, não fosse um detalhe absolutamente extraordinário: o orçamento de 2026 ainda nem sequer foi discutido nem aprovado. Sim, leu bem. Em Arcozelo, entrou-se numa nova dimensão da gestão pública: retificar primeiro, aprovar depois ou talvez nunca.
É caso para dizer que o Presidente revelou um talento inesperado para a arte da antecipação… ou talvez para o ilusionismo administrativo. Porque alterar aquilo que ainda não existe exige uma imaginação que ultrapassa largamente os limites da contabilidade e entra já no domínio da fantasia. Talvez estejamos perante uma nova escola de governação onde os documentos aparecem depois das decisões, onde os efeitos surgem antes das causas e onde a realidade é apenas um detalhe inconveniente.
Vive-se entre a fantasia e a responsabilidade. Convém lembrar que a gestão pública não é um espetáculo de magia. Não há truques de bastidores que substituam rigor. Não há cortinas que escondam números. E não há fórmulas milagrosas que dispensem responsabilidade. A oposição não está disponível para assistir em silêncio a este tipo de exercícios administrativos que desafiam o mais elementar bom senso. Porque uma freguesia não se governa com criatividade excessiva - governa-se com seriedade.
A população merece mais do que truques. Os habitantes de Arcozelo não precisam de mágicos. Precisam de responsáveis. Não precisam de números que desaparecem. Precisam de contas claras. Não precisam de orçamentos que nascem ao contrário. Precisam de decisões com pés e cabeça. Porque governar uma freguesia não é um espetáculo. É uma responsabilidade. E essa responsabilidade não pode ser tratada como um exercício de fantasia.
Arcozelo, 28 de abril de 2026
PSD Ponte de Lima
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